quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Do pergaminho à chalé


Sai do arraial enquanto sai a procissão
E distrai a pedra bruta e o espinho vil
De saltinho em saltinho larouco e gentil
E pass' a vereda baça e tola no brasão

Eu cá vou pelo caminhinho enxuto de pedra
Trajando sainha de chita, sem véu e sem xaile
De blusinha decotada catita costurada pro baile
Teimos’o pomar rústico saltita rebeldia medra

Pr’ o nosso leito levo nas mãos o sol a pino
Lírios alvos de quintais rústicos da população
E um ósculo ensaiado da cabeça ao pezinho

Enquanto chego, não chego ao teu pé toca o sino
Lameloso de saudade n’ uivos telúricos d’emoção
Basta! E levo champanhe a ferver pelo fresquinho


 Funchal, 27 de agosto de 2014

Maria Luzia Fronteira 

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Para ele


Que mesclas benditas, são essas que saem de ti
Nessa fé semântica de luxo morgado e mareante
Benigna assim de cruz parada, de cruz bailante
Tal como o terço que rezo, que carrego aqui

Ainda assim, mesmo sem a tua permissão
Deitei-me também mareada sobre ti
Importado, extremoso e gigante, assim te vi
Amor tão fusco, como tão galante, como tão…

Não obstante fechei os olhos nesses teus latos
E cheiravas-me não só a leitos de lírios e violetas
Mas também a tintos esparrelas e absintos

E eramos dois pasmados olhos nos olhos, fartos
Tu de mim e eu de ti em tão ror de patetas letras
Sarelhand’ eclipes num só coro de labirintos

Maria luzia Fronteira
Funchal, 13 de abril de 2013





sábado, 9 de agosto de 2014

Tique




De raiz em romaria vai península
Vai de treva e tormenta vestida
Nos miolos leva focos d’ermida
N’alma faróis de forja, campânula

Nos dedos leva teoremas marinhos
Na íris bendit’ um cruzeiro de sal
Na boca esguia um tropel de cal
E no peito nostalgias em raminhos

E vai dar ao ancoradouro crónico
E vai dar ao altar de pedra razia
Espuma de véus, esfinge d’ enredo

Algo porém sobe ao tique paranóico
Não obstante na cruz e a palma vazia
Coleio no cio entre a lu’ aconchego

Funchal 09 de agosto de 2014


Maria Luzia Fronteira

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Azul, azulinho


Azul de tão azulinho vocifera, azul céu
Salvé escaninho no mundo entontecido
Caldo d’infusão no corpo desguarnecido
Céu de todo azul, de seca senil, ao léu.

Azul, gigantesco tunel clarão, azul manto
Azul, arquejante quase mi  corpo exilado
Débil, mudo, fútil gemido enfim, destinado
Maestro azul no céu, no mar, pachorrento.

Azul, tam no casulo salífera azulinha e canta
Azul, pomposo, azul vaidoso metáfora louca
Mui quieta qued’ aqui no ser vera revolta.

Nas mãos baraço, fedelho fosco azul anta
Art’infante bento azul azulinho limalha oca
Monda chama de corpo e alma, nota solta  


Maria Luzia Fronteira
Funchal, 17 de abril de 2012 



segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Aos noivos

Entr’o candelabro vai cais fulgor em maresia
Sobr’a tardinha febril níveas cenas de luxuria
Arregalos através, tão tocar gentil d’aleluia
Nos corpos tenros, qual sacríficio s’ atrevia

Exímios ao altar de vestes cerimoniais n´alarde
Os corpos em aflição, amiúde virgens ensaiados
Um beijinho dissimulado tu e eu, desembaraçados
Em pecados ant’o términus da benção do sr. padre

E  as faces pariam pérolas salgadas filosofais
O véu em câmara lenta alevantando, casados
E as alianças d’oiro puro faíscando, até à morte

Sem as vestes após o copo d’agua, ao céu fatais
Sem a langerie sequer, tu e eu nusinhos e caídos
Míticos de tão glória ai benesses, de tão sorte

Maria Luzia Fronteira
Funchal, 06 de março de 2013


domingo, 3 de agosto de 2014

Ataraxia


Apreciemos as vistas, sem mais digitais, nem malefícios
Amor, prósperos assim, sem acaríases de verve canção
E ao campanil tilintão de thriler agoirento e sabichão
Mandemo-lo à vidinha de calhambeque n’ artíficios

Amor, enlacemos as mãos e apreciemos sem rodeios
Aquela tapeçaria bela e fina bordada a ponto d’oiro fino
N’explanada serra verde, sem ditas cartas ao destino
Sem oiras, nem desatinos sejamos sábios e saloios

Já vistes a murteira, os jamboeiros e os loureiros mortos
D' adubo feito aos que já florescem vulcâneos, pomposos
Olha também os pés-de-galo, saltitando rédeas de vistosos

Não nos deixemos levar, por cartomantes vindoiros d’olhos
Postos olhados em birras, chios, urros, e uivos desditosos
Amemo-nos sem matreiras e sem fantoches d’ abrolhos

Maria Luzia Fronteira
Funchal, 12 de novembro de 2012