terça-feira, 29 de julho de 2014

Na casinha sagrada



No baú a colcha dos noivos titilando
Parda bordada a ponto mar tamanho
Entre traças mil num festival medonho
Tiara e véu, pélagos maranho realçando

Do vestidinho da boda a ponto rexelieu
Restam apenas alcinhas de luz, macias
De famílias e vizinhas, pestes aracnídeas
Em labutas cochilando nédias de bordeaux

E no soalho cariado o formigueiro, estupor
Imitando nossos laivos passos num tremor
A brincarem d’ asfixia, nosso amor puro

Mas lá, mais ninguém brinca meu amor
No teu fato delirante de lacinho, no bolor
Nem n’ alianças arreadas traçandas n' oiro

Funchal, 29 de julho de 2014
Maria Luzia Fronteira


Castigo


Caminho na pedrinha atirad’ao telhado
À hora exata, um verso no papelinho
Debruçad’ à janela, véspera de domingo
O fato no arejo para a missa, engomado

A  calçinha de terylene, à boca de sino
Vincada a pente fino e a blusinha tafetá
Sapatinho de cortiça olh’a graça que lhe dá
Ao pezinho a saltitar beligerant’o vespertino

A caminho da igreja o assobio m’esmorece
Repent’ uma caríci’a enlouquecer a cabeça
Gazeada a hora da missa e da catequese

Jesu de volta a casa, incumprida a prece
Castigo do senhor padre à falta de presença
Mil terços no quarto, o corpo a salvo agradece.




Funchal. 27 de julho de 2014

Maria Luzia Fronteira



quinta-feira, 24 de julho de 2014

Sobra-me um beijinho




Sobra-me um beijinho em botão
De ternuras sazonais, rendilhado
N’ entrelinhas dum matiz bordado
E n´explosão escolhes tu, o padrão

Vem, só da testa até, até ao queixo
Grandíloquos vão alíseos a caminho
Num rabiscar peripécias, devagarinho
Ai das partes vizinhas, mais a abaixo

Incendeio teus beicinhos à rés breve
Retroajo, ao pico do nariz tiritante
Serpentezinha é tua língu’a labutar

N’airada já sem véu, ave-maria, ave
Ciente no pecado, pejo no semblante
E o restinho das partes, entr’o bipolar


Funchal, 24 de julho de 2014


Maria Luzia Fronteira

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Minh’alma


Minh’alma é serventia, já sem graça
N’aberta janela de brisa morrinha
No palco, a plateia, um’andorinha
Que desce e sobre, sobe e desce lassa

Meu amor, hall d’entrada de loas tamanhas
Entre partes do corpo que t’ espreitam tímidos
E lavandas a miúde entre aromas mil, esvaídos
Num mar salso de lu’arteir’a traçar montanhas

E há licores de mel nos lábios de cieiro
Eu sei, oh estranha sina, tu que moras além
Oh dos subtemas entre mil mias de vaivém

E deambula minh’alma nesse formigueiro
Que sai de casulo puro, inocente e virgem
Como caíd’ à nascença aos pés de minha mãe.



Funchal, 01 de julho de 2014
Maria Luzia Fronteira