domingo, 7 de setembro de 2014

É urgente

É urgente o encontro à noite na lua pálida e marota
E a lenda pagã d’ argila rara nos campos a decompor
Sem aritmética poética é urgente o poema no desamor  
O capricho pupilo na língua arrebatada, sabida e solta

É urgente o alegra campo no teu corpo rosicler, exato
O musgo na casinha de pedra a bulir efémeras de paixão
Vestida de prata, a voz coloquial em ternuras d’explosão
Ambar e almiscar eternos nós dois de tanto sentir abstrato

É urgente espessas mágoas à solta sem sóis no beiral
O dorso vergado na poeira do lírio, a alma do avesso
É urgente a morrinha, o lema, o poeta de gema, o verso
D’ improviso  no vario universo de matizes imortal.



Maria Luzia Fronteira

Funchal, 07 de setembro de 2014 

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Do pergaminho à chalé


Sai do arraial enquanto sai a procissão
E distrai a pedra bruta e o espinho vil
De saltinho em saltinho larouco e gentil
E pass' a vereda baça e tola no brasão

Eu cá vou pelo caminhinho enxuto de pedra
Trajando sainha de chita, sem véu e sem xaile
De blusinha decotada catita costurada pro baile
Teimos’o pomar rústico saltita rebeldia medra

Pr’ o nosso leito levo nas mãos o sol a pino
Lírios alvos de quintais rústicos da população
E um ósculo ensaiado da cabeça ao pezinho

Enquanto chego, não chego ao teu pé toca o sino
Lameloso de saudade n’ uivos telúricos d’emoção
Basta! E levo champanhe a ferver pelo fresquinho


 Funchal, 27 de agosto de 2014

Maria Luzia Fronteira 

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Para ele


Que mesclas benditas, são essas que saem de ti
Nessa fé semântica de luxo morgado e mareante
Benigna assim de cruz parada, de cruz bailante
Tal como o terço que rezo, que carrego aqui

Ainda assim, mesmo sem a tua permissão
Deitei-me também mareada sobre ti
Importado, extremoso e gigante, assim te vi
Amor tão fusco, como tão galante, como tão…

Não obstante fechei os olhos nesses teus latos
E cheiravas-me não só a leitos de lírios e violetas
Mas também a tintos esparrelas e absintos

E eramos dois pasmados olhos nos olhos, fartos
Tu de mim e eu de ti em tão ror de patetas letras
Sarelhand’ eclipes num só coro de labirintos

Maria luzia Fronteira
Funchal, 13 de abril de 2013





sábado, 9 de agosto de 2014

Tique




De raiz em romaria vai península
Vai de treva e tormenta vestida
Nos miolos leva focos d’ermida
N’alma faróis de forja, campânula

Nos dedos leva teoremas marinhos
Na íris bendit’ um cruzeiro de sal
Na boca esguia um tropel de cal
E no peito nostalgias em raminhos

E vai dar ao ancoradouro crónico
E vai dar ao altar de pedra razia
Espuma de véus, esfinge d’ enredo

Algo porém sobe ao tique paranóico
Não obstante na cruz e a palma vazia
Coleio no cio entre a lu’ aconchego

Funchal 09 de agosto de 2014


Maria Luzia Fronteira

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Azul, azulinho


Azul de tão azulinho vocifera, azul céu
Salvé escaninho no mundo entontecido
Caldo d’infusão no corpo desguarnecido
Céu de todo azul, de seca senil, ao léu.

Azul, gigantesco tunel clarão, azul manto
Azul, arquejante quase mi  corpo exilado
Débil, mudo, fútil gemido enfim, destinado
Maestro azul no céu, no mar, pachorrento.

Azul, tam no casulo salífera azulinha e canta
Azul, pomposo, azul vaidoso metáfora louca
Mui quieta qued’ aqui no ser vera revolta.

Nas mãos baraço, fedelho fosco azul anta
Art’infante bento azul azulinho limalha oca
Monda chama de corpo e alma, nota solta  


Maria Luzia Fronteira
Funchal, 17 de abril de 2012 



segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Aos noivos

Entr’o candelabro vai cais fulgor em maresia
Sobr’a tardinha febril níveas cenas de luxuria
Arregalos através, tão tocar gentil d’aleluia
Nos corpos tenros, qual sacríficio s’ atrevia

Exímios ao altar de vestes cerimoniais n´alarde
Os corpos em aflição, amiúde virgens ensaiados
Um beijinho dissimulado tu e eu, desembaraçados
Em pecados ant’o términus da benção do sr. padre

E  as faces pariam pérolas salgadas filosofais
O véu em câmara lenta alevantando, casados
E as alianças d’oiro puro faíscando, até à morte

Sem as vestes após o copo d’agua, ao céu fatais
Sem a langerie sequer, tu e eu nusinhos e caídos
Míticos de tão glória ai benesses, de tão sorte

Maria Luzia Fronteira
Funchal, 06 de março de 2013


domingo, 3 de agosto de 2014

Ataraxia


Apreciemos as vistas, sem mais digitais, nem malefícios
Amor, prósperos assim, sem acaríases de verve canção
E ao campanil tilintão de thriler agoirento e sabichão
Mandemo-lo à vidinha de calhambeque n’ artíficios

Amor, enlacemos as mãos e apreciemos sem rodeios
Aquela tapeçaria bela e fina bordada a ponto d’oiro fino
N’explanada serra verde, sem ditas cartas ao destino
Sem oiras, nem desatinos sejamos sábios e saloios

Já vistes a murteira, os jamboeiros e os loureiros mortos
D' adubo feito aos que já florescem vulcâneos, pomposos
Olha também os pés-de-galo, saltitando rédeas de vistosos

Não nos deixemos levar, por cartomantes vindoiros d’olhos
Postos olhados em birras, chios, urros, e uivos desditosos
Amemo-nos sem matreiras e sem fantoches d’ abrolhos

Maria Luzia Fronteira
Funchal, 12 de novembro de 2012





terça-feira, 29 de julho de 2014

Na casinha sagrada



No baú a colcha dos noivos titilando
Parda bordada a ponto mar tamanho
Entre traças mil num festival medonho
Tiara e véu, pélagos maranho realçando

Do vestidinho da boda a ponto rexelieu
Restam apenas alcinhas de luz, macias
De famílias e vizinhas, pestes aracnídeas
Em labutas cochilando nédias de bordeaux

E no soalho cariado o formigueiro, estupor
Imitando nossos laivos passos num tremor
A brincarem d’ asfixia, nosso amor puro

Mas lá, mais ninguém brinca meu amor
No teu fato delirante de lacinho, no bolor
Nem n’ alianças arreadas traçandas n' oiro

Funchal, 29 de julho de 2014
Maria Luzia Fronteira


Castigo


Caminho na pedrinha atirad’ao telhado
À hora exata, um verso no papelinho
Debruçad’ à janela, véspera de domingo
O fato no arejo para a missa, engomado

A  calçinha de terylene, à boca de sino
Vincada a pente fino e a blusinha tafetá
Sapatinho de cortiça olh’a graça que lhe dá
Ao pezinho a saltitar beligerant’o vespertino

A caminho da igreja o assobio m’esmorece
Repent’ uma caríci’a enlouquecer a cabeça
Gazeada a hora da missa e da catequese

Jesu de volta a casa, incumprida a prece
Castigo do senhor padre à falta de presença
Mil terços no quarto, o corpo a salvo agradece.




Funchal. 27 de julho de 2014

Maria Luzia Fronteira



quinta-feira, 24 de julho de 2014

Sobra-me um beijinho




Sobra-me um beijinho em botão
De ternuras sazonais, rendilhado
N’ entrelinhas dum matiz bordado
E n´explosão escolhes tu, o padrão

Vem, só da testa até, até ao queixo
Grandíloquos vão alíseos a caminho
Num rabiscar peripécias, devagarinho
Ai das partes vizinhas, mais a abaixo

Incendeio teus beicinhos à rés breve
Retroajo, ao pico do nariz tiritante
Serpentezinha é tua língu’a labutar

N’airada já sem véu, ave-maria, ave
Ciente no pecado, pejo no semblante
E o restinho das partes, entr’o bipolar


Funchal, 24 de julho de 2014


Maria Luzia Fronteira

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Minh’alma


Minh’alma é serventia, já sem graça
N’aberta janela de brisa morrinha
No palco, a plateia, um’andorinha
Que desce e sobre, sobe e desce lassa

Meu amor, hall d’entrada de loas tamanhas
Entre partes do corpo que t’ espreitam tímidos
E lavandas a miúde entre aromas mil, esvaídos
Num mar salso de lu’arteir’a traçar montanhas

E há licores de mel nos lábios de cieiro
Eu sei, oh estranha sina, tu que moras além
Oh dos subtemas entre mil mias de vaivém

E deambula minh’alma nesse formigueiro
Que sai de casulo puro, inocente e virgem
Como caíd’ à nascença aos pés de minha mãe.



Funchal, 01 de julho de 2014
Maria Luzia Fronteira