sábado, 26 de maio de 2012

Tramas




Tramei as regras e as superstições, em mim
E rasguei o véu branco pré-nupcial
E ao desejo suplicante, mandei-o apique
E poisei o meu tique abismal, pontual, assim:

Pintei o cabelo num tom extravagante
Vesti uma roupa xique em cores de néon
Calçei socas de camurça em tom de mel
Usei a mala, a pintura e o perfume de chanel.

Embarquei pela noite adentro e parti a bruma
Ponto. E ordenei ao planeta das esperas, basta!
Deixei a servil picareta dos dedos, poisei a caneta
E escrevi um poema em página nenhuma.

E ao estupor lirico do coração severo
Cantei decididamente adeus, ou até breve
Talvez, quem sabe do involúcro vindoiro
E o que será, infusão lírica? Jamais a quero!

Maria Luzia Fronteira
Funchal, 26 de maio 2012

2 comentários:

Jorge Sader Filho disse...

"E ao estupor lirico do coração severoCantei decididamente adeus, ou até breve". E está dito tudo!
Muito bom o seu poder de comunicação, poetisa.

Carinho,
Jorge

Filipe Campos Melo disse...

Há uma incontida raiva que se transmuta em contida ironia

que se rasguem todos os véus
(e os nupciais)
que a toda a espera se diga basta
(basta)
que ao lirismo se suceda o silêncio
(...)

Bjo.