terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Bradasse eu



Bradasse eu suspiros como bradaram tais mitos
Úberes e finos arrevesos na terra, em romaria
Feitos apocalipses e odisseias mediant' agonia
De voga intrínseca, oh mais-valia, ditos inéditos

Pudesse eu ser um atrofio no tempo, sem amor
Traçar, rastejar eriçar flexuosamente como réptil
Procurar içar lugares sem nunca encontrar, febril
Explodir abril em cotovias etéreas ousadias à dor

Quisesse eu ser assim, esse tal poeta de verdade
Na herdade do descaso, ser eiró de canto a canto
Ser antro, ser tristeza,  fado marado, ser saudade

Fiasse eu vales sob o anil do céu tear de cinzas mil
E gritasse, amor gentil, amor fugaz, amor fatal e tal
Em anáforas de refrão, amor em nuances d’ imbecil

Maria Luzia Fronteira
Funchal, 11 de dezembro de 2012


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Trovador





Trovador, canta-me assim aquele canto corpulento e perene
E espalha essa magna voz, como um rústico terreno de Deus
Firmeza pura de mistérios, aviva-me estes hemisférios meus
Actínios por outros prazeres, canta-me em nívea voz de cisne

Canta sobre esta nossa plateia altiva, bela e fina em castas
Ah pomos purpúreos e negros de cerejas e amoras bravas
E atiça ainda assim ardentemente nossas vontades escravas
De vastos anseios pendentes nos apetites apenas cineastas

E sigamos deuses pela cambraia riquíssima da terrena floresta
Ai das veias tubulares, vivazes e aprazíveis, em lavas milhares
Sobre o leito vivo e doirado, a espreitar um coração em festa

Canta-me sem hesitações, oh trovador e percamo-nos nas cenas
Vivas em, oh soberbas de troféus adiados pelas astenias apenas
Rasguemos, ai de nossas vestes de basílica, sem mais cantilenas.

Maria Luzia Fronteira
Funchal, 05 de novembro de 2012


domingo, 4 de novembro de 2012

Vamos amor




Amor, vamos pel’alegre mira que se avizinha, vamos
Até ao lume da montanha, sem o cambapé e a fuinha
Das parolas malignas do juá-de-las vinhas e companhia
Antes q´ o sol s’ alevante da soirée, arteiros prossigamos

Acordemos … pé ante pé, às mirras labíadas e polvorosas
D’ aromas, às boninas carnosas de folhadal verde imaculado
E entremos de soslaio ao de leve canto, oh  amante meu arado
Campo de zéfiros floras de suspiros, oh das carnes graciosas

Abracemo-nos confiantes no porvir , qu’é  breve e arroteemos
E invistamos nossas bocas n’ ósculos imaturos plo’ solstícios
Apelando aos pelouros manjares lascivos em nós, desusados

E já na última peripécia do evento sem receios, avancemos
Lambuzemo-nos do cabeçalho ao rodapé em exercícios
E confessemos nossos corpos possantes de tam pecados.

Maria Luzia Fronteira
Funchal, 04 de novembro de 2012 

sábado, 3 de novembro de 2012

Vindima poética




No pelourinho das latadas há vides adultas, todas
Cochicando lêmures de lua grega sem mansidão
Sobre corgos de mil lâmias sem letícias d’ estação
 Na cartola do corpo, ai do gosto,em fermentação

E passam, que passam em romaria mil bestas,  demais
Carregadas de casta n’alva, n’escarlate  negror de cor
Em lepas de girândola avatar e febril, ai do nobre labrador
De marcianas míticas de galés a eito, oh carreiros ancorais

E pisa que pisa e repisa o passo no lagar, sem tradução
Organdi de mi nascente fugaz e tímida de fronte virginal
Sazonal que se esparrama, oh polpa ardil d’ imensidão

Tão vertigens de prado, ah embriaguez nos beiços alados
De brados, as mãos calejadas e tresloucadas como anzóis
De pés atascados e dorso vergado num lagar de bardos.

Maria Luzia Fronteira
Funchal, 04 de novembro de 2012



domingo, 28 de outubro de 2012

No mais que perfeito




Amor ainda que seja rigorosa a noite, no caudal d' emoção
Está atento, se por acaso passares entre o pastoril nosso
Aquele de rara candura em extravio no fundo dum poço
Traz tudo o que houver, até de mirras, o que tiveres à mão

Traz aromas, os das flores das acácias das veredas gentis
Os retalhos roxos das flores de violeta, entrelaçadas nas heras
Valentes barrancos, agora arcaicos bolorentos de quimeras
Malhadas d' infinito amor em desacatos, esgotados e confins

Traz também a grinalda dos corpos alucinantes bravos
O cós de loucuras, de prazeres constantes em desalinho
E a terra morna  da primaver' agora d' outros brados

E posições alternadas no pré-destino de suor escorrido, nosso
O êxtase e o clímax, os recuos e avanços desse nosso ninho
Resistente às intempéries, ah e traz a avé maria e o padre-nosso.

Maria Luzia Fronteira
Funchal, 28 de outubro de 2012

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Ah, gosto da tradição




Ah gosto da tradição, do arcaico nos terreiros
Calcetados a pedra de calhau, trabalhados
E gosto dos campos amplos metamorfoseados 
Por entre os mais galantes verdes clorofilados.

E gosto das estacas nas latadas repousand’
O plantio dos vinhais imensos e a ponto mor
Ah gosto da tradição, da sombrinha nos amantes
Acoplados nos imaturos beijos e abraços do amor.

Oh das aragens e dos arados, do seu condão
E gosto da transmutação do sereal no pão
Do mosto no vinho sobre a mesa fidalga
Ah e do brinde no copo de cristal, afrodisíaco.

E gosto mais ainda de Deus indecifrável
Presente no sol, na lua, n’ água e na terra
Ah, gosto da fidalguia do universo em tournée
Lançad’ao tam subjetivo elemento…agente.

Maria Luzia Fronteira
Funchal, 06 de junho de 2012

sábado, 26 de maio de 2012

Tramas




Tramei as regras e as superstições, em mim
E rasguei o véu branco pré-nupcial
E ao desejo suplicante, mandei-o apique
E poisei o meu tique abismal, pontual, assim:

Pintei o cabelo num tom extravagante
Vesti uma roupa xique em cores de néon
Calçei socas de camurça em tom de mel
Usei a mala, a pintura e o perfume de chanel.

Embarquei pela noite adentro e parti a bruma
Ponto. E ordenei ao planeta das esperas, basta!
Deixei a servil picareta dos dedos, poisei a caneta
E escrevi um poema em página nenhuma.

E ao estupor lirico do coração severo
Cantei decididamente adeus, ou até breve
Talvez, quem sabe do involúcro vindoiro
E o que será, infusão lírica? Jamais a quero!

Maria Luzia Fronteira
Funchal, 26 de maio 2012