Sexta-feira, 1 de Junho de 2012

Vela, vela




Vela, vela e tramela na noite, pela chalé
Como chacal de turba faminta e peregrina
Escorrendo o queixume em parafina
Na luz pagã, na luz divina, robusto pé.


Vela, desgostosa pel’ alvorada afora e aflora
Viril à janel’ a emoção anciã no pavio do dia
Solta a birra, solta a cor de acaso, solta a utopia
E solta o descaso tolo, que na besta mora.


As mãos escravas à vela, se escalpelam
Velam ao socorro angelical bendito
E os lábios virgens num cieiro maldito
De sanções gasosas que se aglomeram.


Maria Luzia Fronteira
Funchal, 01 de junho 2012





Sábado, 26 de Maio de 2012

Tramas




Tramei as regras e as superstições, em mim
E rasguei o véu branco pré-nupcial
E ao desejo suplicante, mandei-o apique
E poisei o meu tique abismal, pontual, assim:

Pintei o cabelo num tom extravagante
Vesti uma roupa xique em cores de néon
Calçei socas de camurça em tom de mel
Usei a mala, a pintura e o perfume de chanel.

Embarquei pela noite adentro e parti a bruma
Ponto. E ordenei ao planeta das esperas, basta!
Deixei a servil picareta dos dedos, poisei a caneta
E escrevi um poema em página nenhuma.

E ao estupor lirico do coração severo
Cantei decididamente adeus, ou até breve
Talvez, quem sabe do involúcro vindoiro
E o que será, infusão lírica? Jamais a quero!

Maria Luzia Fronteira
Funchal, 26 de maio 2012

Domingo, 6 de Maio de 2012

Meritíssima poesia




Meritíssima poesia, oh das sequelas
Todavia ai dos mortos e seus descendentes
Manuscritos mil de processos pendentes
Dependentes nós, havemos de rasgar querelas.

Tu e eu entremeio do acaso que assino
Em descaso, havemos de tingir a irís
Galgando as cores num arco-íris
Do desvão, num implante ao destino.

Tu e eu de salto em salto minguante
Qual solo soalheiro nos acolhe a nós
No mondado mofo dum tempo às escoltas
Do sim, do não e a razão a sós no vago vagão.

Maria Luzia Fronteira
Funchal, 06 de maio de 2012 

Sábado, 5 de Maio de 2012

Voa, voa




Estreante olhar poente… adiante
In.consciente, êxtase de sensação
Ventre umbilical em expulsão
Na parida da canção…o instante.

Obediência sem medida, breve nada
Odisseia soturna veia, voa, n’ urgência  
Eufórica polifónica estridente, consequência
Sem aritmética, oh da pele impregnada

Voa, voa do prenúncio cúmplice das eras
Em desejos mil na roda do vento que corre
Voa, voa do gerúndio que morre
Voa, voa oh do sobejo das esperas.

Maria Luzia Fronteira
Funchal, 05 de maio de 2012

Quinta-feira, 26 de Abril de 2012

...em déjà vu




Sem receios deitei-me no teu corpo
Como ao luar primaveril antigo
Entreguei-me às maçãs do teu rosto
Mergulhadas nos pomares rústicos.

Teus poros eram de odores campestres
Cerejas, amoras, mirtilos, silvestres
E a tua boca ladina espraiando
Madressilvas ... os odores da campina.

...fui mais além, a tua língua na minha
 Serpentes tesas ziguezagueando sem preguiça
Éramos duas presas numa explosão só
De peripécias fantásticas ... anestésicas.

Por isso segui o itinerário sem freios
A alta velocidade na tentação senil
Dos meus anseios, percorri do teu pescoço
Ao  peito e ao resto dos membros num alvoroço.


Era uma excitação bendita
Que acabara antes de começar
Aterrando no mar sádico da saudade
...em déjà vu.

Maria Luzia Fronteira

Funchal, 26 de abril de 2012



Quarta-feira, 25 de Abril de 2012




Epigrafados

Nos corredores inquietos das entranhas
Ao sabor do vento, agil e violento
Sobrevive a poesia inútil e incompleta
Nas aparas dos dias num tom de guerra fria

Todavia, entornada em curvilínea
Anuncia invernada na vaga ilimitad'a
Fera aflita é recém masturbada, a melodia
Na moradia epígrafada em rectilínea

Ponte de ligação na confissão ao alto
E ao chão, dois corpos num só, caricatos
Desembaraçam-se orgasmos sarcásticos
Como pedras soltas uivando no asfalto.


Maria Luzia Fronteira
Funchal, 25 de abril de 2012

Terça-feira, 24 de Abril de 2012



Razão
Nobres serão os campos
Nas estrelas do nobre serão
Impérios serão mais, os recantos
… tímidos cantos do senão, sem senão

E mais nobres serão ainda
O poeta  e a canção
Vaga-lumes no acaso vão
Na saudade, no fado, na solidão

E a noite não foi tão má
Na promoção da canção
E o dia será  mais dia, na razia
Em extravio da razão ...NÃO!


...e em  linha reta, todos serão
A ponto fixo... homenagem ao coração
É saudade, é fado, é solidão
… o poeta é sem razão…NÃO!

Maria Luzia Fronteira
Funchal, 24 de abril de 2012